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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Surpresas artísticas pelas esquinas nos museus de NY

Mais um dia de chuva, mais um dia em museus: não que eu não gostasse da idéia, mas estava com um grupo de pessoas não-tão-interessadas-em-arte-quanto-eu, e essa era uma boa desculpa para passar o dia caminhando entre galerias - programas ao ar livre são impossíveis quando o tempo está ruim em Nova Iorque. No domingo, dia 14 de março, conhecemos o Guggenheim.

Chegamos ao nosso destino depois de atravessarmos o Central Park - no lado oposto do parque fica o Metropolitan, uma coisa absurda de tão imponente e importante, que tínhamos visitado alguns dias antes. Então, depois de vermos todos os resquícios das civilizações já existentes na face da terra e depois da epifania proporcionada por Abramovic no MoMA, nos considerávamos preparados para qualquer coisa que o Guggenheim pudesse nos mostrar.

Entre Monets e Degas, uma galeria com o Maliévich e outra com projetos de artistas contemporâneos para o "void" do museu, encontro uma escada que com o singelo aviso: Anish Kapoor, Memory. As informações me atraíram - tanto por ja conhecer o trabalho de Kapoor quanto pelo título do trabalho, sempre presente nas minhas pesquisas.


Mas, inicialmente, não consegui colocar as duas informações na mesma sentença: o que já vi (no CCBB e pela internet) do artista tratava sempre de algo perto do imaterial, do fugidio, do incomum, e, pra mim, memória sempre foi a palavra mais pessoal e aconchegante do dicionário. Essa primeira impressão durou alguns minutos. Enquanto eu olhava aquele enorme balão de ferro, que parecia preso numa sala branca, conseguia ver alguns pés do outro lado - comecei então a pensar em a) como aquelas pessoas tinham chegado lá, se a faixa no chão deixava claro que eu não podia me arrastar por baixo da obra e; b) como seria a visão delas, presas naquela outra extremidade da escultura/site-specific/míssil de guerra.

Caminhando um pouco mais por entre os impressionistas, cheguei em outra escada que levava a mais Anish Kapoor, mas que, dessa vez, não era o mesmo míssil, parecia mais ser um quadro... "que bela novidade, um quadro do Kapoor!" - pensei com intimidade. Santa inocência. Ao chegar mais perto, aquele aparentemente quadrado negro (Maliévich?) parecia ter cada vez mais profundidade. Não era uma superfície bidimensional - "aquilo" estava carregado, de vazio e de silêncio.

Finalmente cheguei onde aqueles pés estavam antes. Coincidentemente, outros pernas haviam se mudado para o lado onde eu estava inicialmente - aquilo não iria acabar nunca? Consegui as respostas para as minhas questões iniciais que, afinal de contas, não eram tão complicadas assim. Tudo estava fazendo mais sentido.

Assim como a memória, a obra de Kapoor nos faz reconstruir. Dentro de nossa cabeça juntamos os pedaços, as recordações e as lembranças, e tentamos formar uma visão do todo. O que, porém, nunca chega num total. A reconstituição é sempre turva - somamos o que passou com aquilo que imaginamos ou queríamos que tivesse passado (esse relato pode ser um bom exemplo).

A memória, assim como as obras de Anish Kapoor, não passam de ilusões. E eu espero que continuem a me iludir.


Mais sobre o artista no site oficial.

Video sobre a exposição, com o artista e a curadora, aqui.

4 comentários:

Luisa Brandt disse...

O efeito está na ilusão, eu adoro iludir-me com Kapoor.!

luciana paiva disse...

to adorando compartilhar suas surpresas, laurem!
fantástico esse trabalho do kapoor.

monica tachotte disse...

Show de bola Laurinha!

luiza mader disse...

Laurem, estava super curiosa para ler a sua matéria sobre a obra do kapoor, no guggenheim. Depois de muitas visitas a museus e x galerias, o kapoor continua a nos surpreender com esta vastidão "silenciosa". Estou adorando o seu diário de bordo de NY!
Beijos