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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Des-pedaços e remendos de um olhar perdido...

Des-pedaços. Laurem Crossetti. 2010

“Olho para você como se olha para o impossível”.

Roland Barthes

Que sacrilégio incomparável rasgar-se uma fotografia! Que crime hediondo (sempre passional) matar uma imagem e privar nossos desafetos, ou nosso próprio passado, da capacidade de a-sombrar-nos como seus olhares turvos e granulares... Quantas vezes essa despossessão foi orquestrada ao longo da história da fotografia? Há uma certa crueldade na impunidade deste ato... nada, no entanto, nos redime.

A fotografia digital (a celebrada imagem numérica) perdeu essas sutilezas: apagar (deletar) uma imagem e confirmar essa decisão de modo quase intuitivo por meio de uma interface (em um mero aperto de botão já basta) banaliza o ato. A fotografia é hoje essencialmente descartável, seu próprio dispositivo prevê que ela seja constantemente eliminada da memória.

Para a psicanalísta Tania Rivera, a fotografia opera um trauma na visão moderna ao re-velar-nos esse “inconsicente óptico”, como alude Walter Benjamin. A fotografia inaugura na experiência subjetiva da burguesia urbana o direito de ser registrado; o direito de ser visto e lembrado, de encenar, performar, sua própria existência e, de certa forma, realizar-se na imagem de seus próprios fantasmas. Esses vestígios, produzidos de bom grado, alicerçam nossas próprias mitologias de origem. A fotografia prestra-se a sua vocação; é absolutamente pretérita.

Estas são fotografias que se lamentam; convertem-se no registro de um desastroso infortúnio e de uma constatação: “Nunca mais me olhou daquela maneira[1]. Essa espécie de nostalgia melancólica confunde-se com a demanda por um olhar (por um modo particular de olhar - “daquele jeito[2]-, como a intensidade de um olhar perdido). Lançamo-nos, então, na busca por esse olhar que, supõe-se, encantador (se por nenhuma outra razão, simplesmente porque o olhar fotográfico é o olhar da sedução).

Mas esse olhar esta desrealizado, como a própria face da outrora jovem noiva. Não o encontramos, aonde quer que o procuremos; ele não comparece. A operação de reconstituí-lo falha. A memória se dá em precariedades, em perdas, em ruínas... A reconstituição é aqui o exercício de uma certa insensatez, uma estratégia rudimentar... há algo de extremamente patético e, portanto, profundamente humano, nesse fracasso. A vida vacila, a memória falha e o olhar esvazia-se... captura-me o “nunca”.

Matias Monteiro


[1] E aqui também o texto nos é dado como fragmento, reconstituído/orquestrado.

[2] Não é esta, afinal, a demanda do fetishista; um glance, o vislumbre, um determinado modo de olhar que o sujeito lança e, mediante o qual, o objeto de seu desejo o captura e o facina?






quinta-feira, 3 de junho de 2010

Apagando as velinhas: Brasília que me aguarda

Xico Chaves. Olhos na Justiça. 1992. foto por Arnaldo Lobato.
É no mínimo curioso que as comemorações dos cinqüenta anos de Brasília tenham se dado em conjunto com uma crise política sem precedentes em sua breve história. De fato, a conturbação nas arenas do poder público ameaçou minguar a festa: Brasília se veria obrigada a alegar sua inocência, se dizer sem culpa (ou, em outras palavras, se des-culpar), e contentar-se com uma comemoração um tanto acanhada. Mas não foi o que presenciamos.
Brasília chega aos cinqüenta anos sentindo falta de si mesma. Tantas vezes nos parece que os espaços amplos de Brasília são um convite para as nostalgias. A saudade parece redimir nossa própria ignorância (Perdoem o clichê, mas o bom brasiliense insiste “nessa saudade (...) de tudo que eu ainda não vi”).
As comemorações, mais do que meramente oficiosas e formais, surpreendem-nos com uma afetividade assombrosa, da qual encontramos ecos nas comemorações da Funarte, nas mostras do CCBB, CAIXA Cultural, e tantas outras. Muito se repete nas cartilhas o ímpeto de mostrar ao mundo (e a si mesmo) um Brasil moderno, integrado e desenvolvido, arrojado e audaz, alicerçado em novos preceitos arquitetônicos e urbanísticos e movido ao carisma progressista de Juscelino, enquanto, marginalmente, tecido pela maciça força de trabalho candanga. Pouco se ouve, no entanto, do grupo Cabeças, do Ex-Cultura, dos salões do MAB, da proposta do Cresça, das publicações da Arte Futura e CIA, das oficinas da 508, da Bric-a-Braque, da geração do mimeógrafo ou da poesia marginal, do açougue cultural T-Bone, do Boi do seu Teodoro, de Dulcina de Morais, do projeto de Anísio Teixeira, do Clube do Choro e do Detrito Federal. Felizmente os nomes são tantos; infelizmente o des-conhecimento é imenso.
A produção artística em Brasília parece caminhar entre certo inconformismo frente à formatação e ordenação social, espacial e política da cidade, uma solidão tenaz frente ao espetáculo de seu céu liberto e um furor quase pueril frente a uma cidade por se construir. Todo artista em Brasília é de certo modo um pioneiro, e, em alguns casos, porque não, um candango.
Brasília epopéica e espetacular tem seu lugar cativo nas escolas, academias e livros. Brasília, produtora de cultura e reflexão, espaço de experiências afetivas, essa é preterida pela mídia e desconhecida sumariamente pelo repertório didático.
Nesse sentido, vale destacar exposições como Brasília, síntese das artes (CCBB) e Arquivo Brasília: cidade imaginário (Espaço Cultural Marcantônio Vilaça), como mapeamentos e construções de memórias afetivas que se enlaçam a partir da produção cultural local.
No caso da primeira, talvez o grande mérito da exposição, habilmente orquestrada por Denise Mattar, seja evitar os clichês e obviedades acerca de Brasília. Enquanto resgata diversos elementos de sua história e itinerário estético, traz, a partir de um grupo de artistas atuantes na capital, a construção de um repertório local, mediante a uma peculiar relação com a paisagem e uma espécie de topologia irônica. Brasília como síntese, como ponto de junção, de encontro e confluência; sintética como diríamos de algo produzido pelo engenho humano e não por um capricho naturante.
No entanto, devemos destacar o espaço destinado ao curso de Artes da Universidade de Brasília e sua relevância no panorama artístico da cidade. A passagem do ICA ao IdA é particularmente tocante para aqueles que, como eu, certamente reconhecem ali sua própria genealogia. Percebe-se uma vocação para a experimentação, nesse cenário inusitado, não apenas pela promoção de encontros de proposta e tendências diversas (por vezes divergentes), mas pelo privilégio de habitar um espaço em construção, sem tradições que não certa intenção moderna. Nesse sentido, concluir o percurso com as passagens de João Angelini, como esse deslocamento ininterrupto e lúdico, é de certa forma não concluir; somos Angelus-Novus... Aguardamos impertinentes os escombros que virão...
De modo análogo, a exposição Arquivo Imaginário, começa mostrando ao que veio: no centro temos a imagem hoje emblemática do cruzamento dos dois eixos; realização do traço apropriador imaginado por Lucio Costa e futura zona de convergência da cidade. A fotografia, realizada por um pouco reconhecido Mário Fontenelle (vide as velinhas de Luciana Ribeiro) provavelmente constitui não apenas um dos primeiros e mais emblemáticos registros históricos da nova capital, mas, no contexto da exposição, é certamente um dos primeiros olhares estéticos tendo Brasília como tema. Fontenelle, que, muito provavelmente, naquele momento tinha proximidade maior ou igual com a aviação do que com o próprio ofício de fotógrafo, soube tirar proveito de seu conhecimento e oportunamente direcionar o piloto a posicionar a aeronave de modo a produzir a antológica imagem. Pois, vejam só, Brasília, como essa imagem, antes de ser uma civitas planejada e ordenada é uma cidade “oportunista”. Foi à oportunidade anedótica que fez dela uma meta do governo JK; por outra, Lucio Costa enviou seu projeto, e incontáveis outros fizeram de Brasília o que ela é hoje; cada candango conta-nos uma história de oportunidades, por vezes casuais, que aqui o trouxeram. De fato, não há forma melhor de começar nosso arquivo imaginário e imagético da cidade do que prestando mérito para aquele que será, sem dúvida, o primeiro artista da cidade.
A partir daí, a história das artes de Brasília acelera-se em passos largos. Grupo Cabeças, Vladimir Carvalho, Nicolas Behr, Ex-cultura, Ralf Gehre Ghere, Bené Fontelles; todos confluem em uma imagem (obviamente, como a de Fontenelle, ampla, panorâmica, abrangente, embora claramente meticulosa em seu enquadramento). São a história de Brasília, marcada por uma postura política e um humor cítrico: seco como a própria capital, astuto e mordaz como se esperaria de uma cidade fundada sobre a promessa de uma nova organização social. Somos apresentados a história estética e poética de Brasília.
Conforme vamos circulando, encontramos nossos conhecidos. Em algum momento do percurso, todo aquele que tem uma aproximação com as artes visuais em Brasília encontrará seus pares, e aí a exposição parece ganhar uma nova profundidade aos nossos olhos; porque a nossa história e a história da cidade parecem entrercruzar-se. Vejo as performances de Polyanna Morgana e sou remetido ao impacto que aquela produção teve em mim como estudante; vejo as evidências estranhamente longínquas do grupo Amostra Grátis e sou remetido às aqueles frascos doutros tempos; vejo o grupo Entorno e lembro-me das pessoas que conheci e das conversas fantásticas que advieram de ações do grupo; Marta Penner me remete a meus primeiros momentos como mediador, Gê Orthof a seu universo em suspensão, tão leve e ao mesmo tempo tão denso; “Deus não existe, Jesus não voltará”, assim, um tanto incompleta sem a mancha que buscava suprimi-la. Os tempos confabulam. Chego a Catedral Rosa e converto-me em testemunha ocular de meu tempo. Converto-me em mais uma memória, zanzando entre os corredores, fragmentada pelos cobogós. Aqui, não um fim, mas um convite, como aquele que pareceu outrora irrecusável para Lucio Costa, para Fontenelle, Nicolas Behr, Polyanna Morgana, Rodrigo Paglieri e todos os outros: se apropriar de Brasília.
Eis a Brasília que nos aguarda.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Breve Notas Sobre A Pintura de Pedro Alvim

Por vezes somos surpreendidos por imagens que nos compelem a falar ou a calar... ou a falar porque temos medo do silêncio. Foi uma grata surpresa me deparar com algumas das pinturas de Pedro Alvim recentemente. Resolvi então dividir esse espanto, com a precariedade e urgência com a qual nos manifestamos sobre aquilo que nos espanta.
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Embora as pinturas de Pedro Alvim possuam uma qualidade quase espectral (como se o mundo, por um breve instante, intuísse sua própria inconsistência e eminente desaparição), há algo de áspero nessas imagens. Em frente a suas telas, eu vejo o romper das coisas...

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A pincelada como uma ruptura; o espaço vaza...

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Sou assombrado por um ventilador, por um tecido lançado sobre uma cadeira, pela sombra fosca, pela imprecisa presença da madeira que delimita o cômodo... A pintura range como uma casa velha.
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Os sótãos de Pedro Alvim são locais de mistérios insondáveis.

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Translúcida como um reflexo sobre a água, a paisagem vacila, tropeça. O espaço como um acidente da visão.

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Eu redescubro Brasília; lembro-me de Clarisse Lispector e concluo: trata-se meramente de um exercício de levitação.

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A paisagem de Pedro Alvim é plana como uma vista aérea: desliza-se sobre a tela sem obstáculos ou empecilho; e, por um momento, o tempo parece sutil.

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Aqui, a pintura não se encerra, ela prossegue.

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Confira o trabalho de Pedro Alvim em três mostras na cidade:

Brasília, Prazer de Pintar- Galeria Fayga Ostrower, Funarte
Brasília, Síntese das Artes- Centro Cultural Banco do Brasil
Paisagens e Tramoias- Espaço Cultural do Superior Tribunal de Justiça

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ser Possível

Detalhe de painel da cidade de São Paulo, 2008. #carolinabarmell

A dupla de artistas Gustavo e Otávio Pandolfo, considera-se quase brasiliense. Na cidade desde 12 de fevereiro, OSGÊMEOS contaram para o Dando Nome aos Bois que conheceram a cidade ainda quando criança por ocasião de uma viagem prêmio recebida em um concurso de desenho. Neste, os dois executaram, separadamente, o mesmo desenho e assim foram premiados com uma viagem à capital.

Desta vez o motivo de tão longa estadia é a gestação da exposição Vertigem. A palavra gestação não aparece em vão neste contexto; quem acompanha a rotina dos irmãos logo percebe que o trabalho é intrínseco às suas vidas e que a dedicação dos mesmos parte de uma bem estar em relação à produção artística na qual eles se propõem desenvolver. Boa parte da montagem da exposição tem o acompanhamento atento dos mesmos que, criando e modificando, delineiam a nova versão da mostra que recebeu o prêmio de melhor exposição do ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2009.

O protecionismo dos irmãos em relação a seus trabalhos não se limita à exposições. Em conversa para o DNB, Gustavo revela que ambos têm muitos ciúmes dos desenhos e que alguns de seus trabalhos nunca terão valor possível de ser pago, pois o valor afetivo é bem maior. Além disso, há ainda outra esfera afetiva que envolve o aspecto profissional da dupla. Durante a montagem das exposições e em todo o processo relacionado às suas produções mais extensasm, envolvem-se pessoas que se fazem fundamentais para o bem estar dos artistas. Desde o irmão mais velho que conduz a montagem e a produção dos objetos, passando por amigos que colaboram nos detalhes e finalizações e outros que escrevem textos para seus catálogos, tudo isso é somado para tornar o ambiente de trabalho o mais agradável possível. Ambos são acostumados a ditarem os rumos de suas produções do começo ao fim e revelam que projetos verdadeiramente incríveis acontecem por acaso, citando a criação do cenário para a gravãção do DVD de Siba e a Fuloresta ou a pintura do centro criativo do palhaço russo Slava Polunin, na França.
Atelier d'OSGÊMEOS, São Paulo, 2008. #carolinabarmell

Sobre o processo criativo, Gustavo e Otávio, declaram-se apaixonados por imagens. Quaisquer que sejam. As obras se desenvolvem dentro de um universo estético próprio, resultado de um caminho de mais de 10 anos de criação. O fascínio por imagens - característico de artistas visuais - neste caso, se revela de forma clara e com grande amplitude. Não há disfarce em demonstrar referências de outros artistas, ditados populares e imagens cotidianas. A construção do trabalho também conta com a apropriação do improviso que os liberta para a experimentação de novas formas, cores e suportes. Em Vertigem veremos pintura sobre diversos suportes, objetos, instalações sonoras, painéis e um pouco desse universo muito particular, carinhosamente apelidado de Tritez.
Apesar de terem apresentado a mostra anteriormente, para eles, cada espaço agrega um tanto de suas características específicas. Os irmãos afirmam que cada cidade que visitam os recarrega de uma série de boas experiências e Brasília não poderia ser diferente. Em suma, 110m² abrigarão os pensamentos dos artistas paulistanos. O ambiente não nos revelará apenas jovens artistas em busca de respostas por meio da experimentação de diversos suportes, mas, acima de tudo, permitirá o encontro de muitas perguntas sobre possibilidades, sonhos e realidade.
Fachada externa da exposição Vertigem, CCBB Brasília, 2010. #carolinabarmell

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Eros e Psique -10 de setembro



EXPOSIÇÃO DE PINTURAS E DESENHOS DE TAIGO MEIRELES
Como encarnar o etéreo? Seria possível atribuir uma forma humana ao que não se pode tocar? Perante esses desafios, Taigo Meireles da o seu mergulho mitológico no oficio tradicional da pintura. Para Taigo, o corpo é mensageiro de fatos espirituais absolutos. Não está atrás do circunstancial, não lhe interessa o ambíguo. Busca nas posturas de seus modelos a exata sensação que persegue, dando estrutura – através do desenho vigoroso - aos seus próprios assombros e paixões, convertendo o ato de observar em ato sagrado, em sacro - oficio. O artista faz uso de vocabulários pictóricos com um rigor que visa extrair de cada um deles o grau máximo de suas intensidades. Estes vocabulários ora entram em fusão, ora se isolam na composição em comentários certeiros sobre as múltiplas possibilidades da técnica. Desta forma, Taigo instala uma armadilha para o olhar, pois do mesmo modo em que celebra seus segredos, revela todo o processo que os gerou. Oculta e transmite simultaneamente, como se quisesse deixar rastros num labirinto. É preciso capturar as pulsações essenciais da criação, convertendo os signos em representações do próprio enigma que as fizeram nascer. Signos que recordem o assombro do pintor diante do vazio virginal da tela. É preciso capturar aquilo que não pode ser descrito apenas por idéias, nem apenas por imagens, nem por palavras e nem por gestos, mas única e exclusivamente pela transmutação destes componentes em um fenômeno integral, pois juntos dão sentido a pintura em sua mais plena singularidade. Assim, o carvão e a tinta se convertem em imagens dotadas de múltiplas interpretações, conferindo a pintura o status de lugar para perpetuação e sobrevida dos mistérios.
TIAGO BOTELHO


ABERTURA DIA 10 DE SETEMBRO ÀS 19 HORAS
VISTAÇÃO A PARTIR DO DIA 11 DE SETEMBRO, DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 10 ÀS 19 HORAS E SÁBADO DAS 10 ÀS 18 HORAS
LOCAL: OBJETO ENCONTRADO, 102 NORTE, BLOCO "B" LOJA 56 - BRASÍLIA - DF.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

ALL

Brasília está (mais do que bem) respresentada no evento Energias da Arte pela instalção ALL de Luciana Paiva. Aproveitando a ocasião do lançamento/abertura, seguem-se algumas linhas sobre a obra.



FALL
por Matias Monteiro



I want to do a piece where I go to the alps and talk to a mountain.
The mountain will talk of things which are necessary and always true,
and I shall talk of things which are sometimes, accidentally true.
Bas Jan Ader



Quando criança, um velho livro de astronomia fora o suficiente: Decidi, aos 7 anos que queria ser astrônomo. Poderiam me perguntar “porque não astronauta ?” (algum inquisidor de clichês pueris sem dúvida o faria, caso eu não tivesse tomado a precaução de, pela maior parte, manter minha convicção secreta). Ora, o espaço parecia-me muito hostil e, certamente, continha distâncias muito tediosas; além disso, um astrônomo razoavelmente aparelhado seria capaz, com seus dois pés fincados no chão, de contemplar aquilo que um astronauta jamais experimentaria. Com um simples folhear de páginas, eu estava nos grandes planetas gasosos de nosso sistema solar, nas superfícies rochosas e acidentadas dos asteróides, no luminescente rastro de um cometa apressado. Abandonava-me confortavelmente em uma poltrona reclinada no planetário e estava pronto para realizar minhas explorações intergalácticas. Embora houvesse empecilhos de ordem cognitiva naquele momento (por mais que tentasse não parecia ser capaz de conceber o infinito, dificuldade que, eu imaginava, seria resolvida a seu tempo), eu estava decidido: Sim, seria um astrônomo, poderia ver o cosmos, e isso me bastaria.
Pois, vejam vocês, para algumas crianças ver já basta. Os corpos celestes enviavam-me solícitos sua imagem, desejavam ser vistos, eram verdadeiros exibicionistas. O mundo está desperto para a intelecção pueril; anima-se mediante a visão da criança por saber que “nenhum aspecto da vida [lhe] é indiferente”[1]. Devemos aprender a bailar con las cosas[2] ou, ao menos a jogar com elas[3].Obviamente o desejo de ser astrônomo não se concretizou (resta ainda um interesse amador, como um deslumbre e um encantamento nostálgico), mas, o desejo de ver, esse permaneceu; e um dia eu descobri que minha vocação era a de ser um observador, um apreciador e, nos casos mais radicais, um fruidor.
Talvez nada disso seja necessário para escrever algumas poucas linhas sobre a instalação All, de Luciana Paiva. Mas no campo das artes não tratamos de necessidades, mas, como argumenta Merleau Ponty[4], de urgências. Foi mediante a esse olhar, instruído pelos grandes eventos astronômicos, que eu vi a obra em questão.
A montagem pareceu-me excepcionalmente simples (e, portanto, podemos supor que envolva um processo rigorosamente complexo, pois, assim costuma ocorrer com as coisas que nos parecem simples); uma instalação modular diretamente realizada sobre a parede de uma sala em penumbra. Essa formatação (módulo sobre parede) parece ser a tônica dominante da obra de Luciana Paiva, ao menos de suas obras mais recentes. Em 2008 realizou duas instalações com soluções bastante próximas: Quando criança, eu fugi e Pequenas distâncias. Não apenas essas três obras compartilham apresentações análogas, também é possível através delas perceber uma sutil mudança no foco de interesse da artista no que concerne um de seus temas recorrentes: o uso da palavra escrita.
Se Quando criança, eu fugi é formada por um jogo associativo de palavras (ao modo surrealista), Pequenas distâncias apresenta-nos grafismos secretos que se sugerem como ideogramas, criptografias, símbolos matemáticos, etc., para, por fim, revelarem-se como inscritos em um processo narrativo. Em All a palavra não está mais apresentada (a não ser pelo alusivo e sutil título da obra). Luciana parece de certo modo se desvencilhar da palavra como registro escrito para abordar, então, a linguagem como estrutura. O que está em questão em All é essa composição (poderíamos dizê-la melódica) que se revela na repetição e alternância de padrões, no exercício de uma insignificância (ou uma insignificação) que lhe é própria.
As dezenas de pequenos papéis laminados, dispostos de forma tão delicada sobre a parede, encobrindo (ou eclipsando) minúsculas fontes luminosas, possui uma singeleza rudimentar: Percebemos seus fios, seus apoios, as pequenas fissuras na finíssima película metálica. Luciana convida-nos, assim, a uma poética da precariedade, da banalidade.
Depois de algum tempo de observação cuidadosa, identifica-se essa nebulosa metálica como sendo composta de pequenas embalagens de bombom cuidadosamente abertas e desamarrotadas (não outro senão o chocolate Alpino, com sua superfície dourada e seu pequeno monte omitidos contra a parede; uma clara alusão ao desejo de ascensão e os riscos da vertigem). O universo (aquele que realmente vale a pena ser visto) pode ser obtido das formas mais simples: velhas impressões em um livro antigo nos fazem astrônomos, algumas bolas de isopor já bastam para que o estudante prodigioso simule as elipses planetárias. Por vezes o encantamento da simplicidade nos passa despercebido frente a nossa eterna expectativa pelo espetáculo. Amar um material descartado, viver em suas imperfeições é um procedimento extremamente afetuoso e difícil de exercitar. Por vezes o finíssimo metal parece demasiado áspero a nosso olhar domesticado.
Luciana propõe-nos que exercitemos essa capacidade de sonhar; revela-nos que “Uma série de olhares poderia ser tão sólida quanto qualquer coisa ou lugar (....)”[5]. Devolve-nos essa capacidade (tão valorizada por Baudelaire) de surpreendermos com o cotidiano e com o banal; e de ver estrelas, aonde quer que elas apareçam.


Brasília, 2009.

[1] BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. 2007. p. 20.
[2] Lama TSULTRIM em Conferência realizada em Brasília em 15/12/2008.
[3]En el reino de las cosas el niño viene a ser una cosa más, que juega con ellas. El hombre no. El hombre es el amo que dice al objeto:‘іYo te pongo aquí!’. En cambio, en el juego del niño, es el objeto el que ruega: ‘Ponme aquí”. ZAFFARONI, Raúl. Apud: PELUFFO, Gabriel. Em: PORTER, Liliana: 2003. p. 169.
[4] MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. 2004. p. 15.
[5] SMITHSON, Robert. Em: CONTRIM, Cecília, FERREIRA, Glória (org), p196.