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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Entrevista- LHWOLF


Nome: Leopoldo Henrique Wolf
Idade: 30
Em Brasília, devemos ficar atentos a obra de:
Milton Marques



DNB– Seus desenhos parecem explorar uma tensão entre palavra e imagem. Como você vê essa relação no seu trabalho?

LHWOLF- Efetivamente espero que se destaque um emaranhamento entre palavra e imagem. Meus desenhos às vezes acomodam palavras escritas, frases de efeito, textos ambíguos e alegóricos (além dos títulos). Inclusive há casos de textos em si - com o comparecimento da rasura – propostos como desenho. Recentemente as palavras parecem escapar e se apresentam geralmente tachadas, como um bloco de texto sem conteúdo aparente.
Suponho que o mais relevante dessa relação não se encontra nas palavras, mas no anseio dos desenhos serem compreendidos como um modo de escritura, em uma aproximação entre miniatura e ideogramatico ou entre textura e textual. Sobretudo na intenção de configurar imagens que resistam a uma tradução inequívoca e de este modo funcionem como um mote para a criação, desde os espectadores, de variadas narrativas. Talvez a suscitar vislumbres de uma realidade além das palavras, rs.


DNB- A noção de textura tanto como produção textual, tanto como relação tátil é recorrente na sua prática poética. Por exemplo, quando você propõe malhas de códigos ou mesmo quando realiza recortes no papel. Esse tem sido um interesse na sua pesquisa atualmente?

LHWOLF- Vocês mencionam os recortes no papel. Nesse momento, os desenhos apresentam janelas feitas pelos cortes em que papeis sobrepostos deixam ver, entre outras pequenas imagens, planos com aparência de ruído. São impressões apropriadas ou acumulo de rabiscos insignificantes, em preto e cinza. Com humor, aludem à radiação cósmica de fundo, quer dizer, à antiga TV fora-do-ar que é uma ausência de sinal. Boa colocação, esse interesse pelo ruído se desdobra em um procedimento detalhista nas texturas produzidas com o objetivo de simular um efeito de movimento orgânico, desde onde o ritmo interpelado pela imaginação aproxima o adjetivo musical. Doutro modo, o pensamento das janelas/recortes é simplificado nas miniaturas tachadas.
A seguir um desejo de maior abstração, de corpos a signos fragmentários, a Textura Orgânica privilegia um caráter tecnicista concernente à concentração, com a intençao de evitar conteudos narrativos ou figuras referentes a imaginaçao de minha tela mental no momento de desenhar, e assim, investigo a possibilidade do surgimento de imagens pela trama, posteriormente trabalho essas formas. Resultam semelhantes a gráficos micro/macrocosmicos que sonhei anos antes dessa produçao. O efeito visual reflete uma virtualidade que favorece a apariçao de imagens em um contexto de leitura, mais, assemelha-se à escritura em um aspecto caligráfico. Essa série é formada pela repetição de detalhes com modificações influenciadas pelas sugestões das próprias curvas, pelo fato de uma copia analógica apresentar distinção de traço em si, pela recombinação de grupos de linhas. Inclusive são redesenhadas, alteradas digitalmente, ampliadas, refiladas, impressas etc. A textura ademais de influenciar a estética da produção de personagens e situações em miniatura (com pseudo-letras, corpos semi-telúricos e plasmas imaginários) se desenvolve em formas Logo-criptográficas. Chego a conjecturar uma equação desde a Simulação vetorial de manchas de tinta. Uma relação com a herança histórica da mancha pictórica, do muro de Leonardo, deixa gosto de Op-arte das cavernas? Em relaçao ao tatil, esse caso se revela mais tatil-visual, um caráter concreto interposto ao bidimensional mais a qualidade de inexistente - do conceito geométrico de linha - e ainda a possibilidade de se pensar uma folha vazia...


DNB- Na sua fala parece haver uma contraposição entre a noção de trama entendida como enredo ou seqüência narrativa e trama como emaranhado de formas. Você acha que sua produção se insere nesse tensionamento?

LHWOLF- Trama de algodão que forma o papel... Mesmo enredo lembra emaranhado e alude à seqüência. Tensionamento numa aparente contraposição, ao reembaralhar, subentendemos, entre forma e narrativa, um questionamento de representação. Pode ser desde uma inter-relação de artificialidade material com sonhar o aspecto objetivo-mundano, bem como sugerido, em consideração à linguagem, em uma intensidade entre funcionalidade e alargamento poético. Apesar disso me parece sedutor um aspecto concreto da linha, da trama, mais perceptível nas texturas.
Com sorte, nem sempre o espectador lê esse tensionamento, mas pode ser tomado como básico. Esse pensamento da representação reflete uma tentativa de evitar impor uma mensagem final, pois os desenhos são criados com a intenção de que possam servir de estimulo à imaginação criativa de quem vê com atenção, direcionados a realidades introspectivas, insólitas, afetivas, silenciosas, em uma noção entre não-verbal e visual que, assim mesmo, aproxima variáveis níveis de leitura e pontos de vista.

No contexto dos Ideogramas Esvaziados - as miniaturas com situações imaginárias – conforme sugeri anteriormente, a presença de uma trama caligráfica com qualidade mais formal é influenciada pela Textura Orgânica que, mesmo assim, entra num domínio de emaranhado narrativo e se desloca a um microscopico, pode-se dizer, fantástico, expandido em conjunção à tela mental. Essa narrativa, em analogia à literatura, geralmente é composta por linhas bem definidas com significados polissêmicos, sem sombras senão rasuras, a textura torna-se textual ao invés de simples superfície dos objetos e dilui uma fantasmagoria (a lembrar o parentesco etimológico com fantasiar), e a perspectiva faz referencia ao oriente em sua essência caligráfica e ao medieval nos livros manuscritos com miniaturas e iluminuras, o expressivo espaço vazio retorna a analogia a uma meditação micro física e sugere varias combinações de visualização entre as figuras, ao mesmo tempo em que por vezes assume papel principal como assunto.


DNB – Paralelo à sua produção em desenho, você vem desenvolvendo uma pesquisa bastante extensa em performance que constitui-se em ações bastante enigmáticas. Podemos citar, como alguns exemplos, sua participação no 24h de atividades performáticas; a série de movimentos quase imperceptíveis realizados durante a abertura da exposição “Brasília: Projetos e Fragmentos” na ECCO (2007); a ação com uma furadeira, “13 furos na parede com brocas de tamanhos distintos”, na galeria CAL; a performance recentemente realizada no evento Fora do Eixo – Precipitações (2008), entre várias outras ações realizadas em Brasília e fora daqui.
Até que ponto suas ações performáticas e sua produção em desenho estão interligadas?


LHWOLF- Creio que um interesse em torno à performatividade relacione as performances aos desenhos. Desenvolvi performances em artes visuais a partir de 1999, com ações, mas também com propostas de instalações e objetos (alguns sofriam decomposição orgânica) entendidos como performance. Tinham uma característica, expressa incluso em exposições menos centradas na performance, de serem apenas projeto antes de expostas e descartáveis após. Por volta de 2002/3, retorno o foco à exposição de desenhos, que em principio não visavam à galeria, e diminuo a produção performática, hoje mais rara. Essa passagem não foi imediata, mas intercalada, vale destacar, por uma tautologia gráfica e um projeto enciclopédico de cópias de centenas ilustrações em expansão de copirraite, por uma ideia de ante-arte com o fim de serem usadas por outros artistas para produzir arte ou não-artistas e textos ornamentados, algumas foram utilizadas, vale destacar entre outros artistas, por Elder Rocha Filho em suas pinturas.
As performances tratam de uma atenção a presença e vestígio corporais, com combinações de objetos cotidianos. A pesar de rejeitar ensaio ou representação de personagem e texto, algumas ações envolveram comentários pontuais a performances teatrais, literárias, musicais, de dança, inclusive comentários a registros de performance como o objeto de arte resultante (como performance-para-video, performance-para-foto e uma presença simbólica do fotógrafo e da maquina de filmar), vale notar, nesse sentido, certa resistência à documentação ou difusão do registro, a privilegiar um caráter efêmero. Algumas ações foram realizadas por outras pessoas, de acordo antecipadamente ou abordadas quase na hora do evento, seguiam uma descrição, uma lista de atividades; algumas desempenhadas em dupla, principalmente com Daniela Bezerra, artista de uma poética entre performance, literatura e arte conceitual.
Papel e caneta apresentam valor de instrumentos cotidianos, mesmo nos casos técnicos, e permitem analogia a uma economia de meios contemporânea ao pensamento processual. A pesar da relevância em se aplicar questões de arte processual ao desenho, os momentos ver desenhos e desenhar sugerem outros caminhos estéticos à imaginação. Pode-se pensar diretamente na mimesis, pois me inspiro na consciência mimética presente na natureza em animais como o polvo, a lembrar sua invisibilidade provocada também pela mancha de tinta.
No começo jogava com o termo meta-epistemologia, com a intenção de traduzir idéias não-verbais da performance a um meio manuscrito de qualidade gráfica. Logo, ao assumir um traço mais subjetivo, afirmei um projeto de investigação do processo do pensamento com o interesse de elucubrar uma imagem não-alusiva, argumento que herda configurações surreais. Com essa aproximação, unida ao alargamento do entendimento moderno sobre um desenho bom/ruim, justifico um tratamento de estética inocente e/ou bruta, que me encantam.
Uma maior simplicidade das ações mais o cuidado de repertório na construção teórica, a pesar de já estarem presentes anteriormente, e alguns assuntos, podem sugerir uma influencia desde os desenhos, por exemplo, as performances citadas na pergunta tratavam de gestos simbólicos, falas intimas intraduzíveis, erotismo e contexto artístico, questoes presentes nos desenhos. Minha apresentação mais recente Reminimaxloplop, em tele presença, versava sobre a questão da imaginação da massa, nesse caso, de uma textura efetivamente tátil.

DNB – Atualmente você está residindo e produzindo na Espanha. Como tem sido essa experiência?

LHWOLF- Estar em Barcelona me parece excepcional. A cidade, em seu comportamento internacional, é muito charmosa, com uma paisagem urbana apaixonante de destaque medieval e modernista, se me entristeço basta dar um passeio ou visitar uma biblioteca de 3000 mil anos. Com uma cultura enriquecida por sua historia portuária, pela curiosa situação política explícita em sua língua, pela relevância das vanguardas surreais, informalistas e literárias e o privilegio na produção medieval de manuscritos miniados... Sem duvida são questões influentes em minha produção que tenho a oportunidade de conviver com maior proximidade nos estudos interdisciplinares. Ainda mais, estão presentes contemporaneamente, entre outras expressões, graffiti, desenhos aparentemente experimentais, arte, digamos, de uma ironia pós-conceitual e um forte pensamento sócio-político, com o privilegio de exposições de culturas distantes, e uma presença oriental. Além do clima confortável, entre litoral e montanha, aproveito a diversidade cultural.


Para mais imagens da obra de LHWOLF, dêem uma olhada em Artistas de Brasília e Cercanias

5 comentários:

Alice Maria disse...

o trabalho do lhw me abriu um mundo,

Matias Monteiro disse...

o trabalho do leopoldo é lindo por demais. =)

Amanda disse...

Queridos!
Queria sugerir 1 vídeo que eu acho que pode ser interessante para o blog, sobre a 29. Bienal. Muito interessante (http://www.youtube.com/watch?v=5QlzvtRrEg0)
A outra sugestao é sobre a trágica notícia de fogo na casa de Helio Oiticica, uma perda enorme pra todos nós. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u639395.shtml)

Beijos

Matias Monteiro disse...

eita Amanda, devo ter postado enquanto você estava sugerindo. Que medo... Valeu pelas dicas =)

Leopoldo Wolf disse...

Hey valeu mesmo!! :D
gostaria de complementar a informacao da Reminimaxloplop, pois a performance ocorreu em telepresença no "1º ciclo de intolerancia", em abril de 2009
... hmmm tem outras referencias, destaco inclusive que alguns desenhos com recortes estavam no "E o Parangolé, que Tem a Ver com o Museu?" em abril de 2007